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O desafio político de inventar os meios para enfrentar a mundia-lização cultural Ir »
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 As implicações geoculturais

Nota introdutória

Jean Tardif

Qualquer cultura é uma maneira original de construir a relação social. Longe de ser um conjunto de características ligadas a um grupo humano, um sistema de reprodução (herança) ou de produção (obras), ela é a própria expressão da condição humana. A cultura é o processo constitutivo de toda sociedade humana. Está ligada de maneira indissociável à construção identitária: a cultura, como a identidade, são processos relacionais. Hoje, esses processos interativos se inscrevem em uma dinâmica ampla, modificada especialmente pela globalização cultural.

A globalização é um conjunto de processos interligados e caracterizados pela multiplicação, aceleração e intensificação das interações entre as sociedades humanas. Ela não se reduz ao aumento dos fluxos econômicos e financeiros, ela afeta todos os setores da atividade humana. Ela comporta uma dimensão cultural, já que confronta de uma maneira inédita valores, idéias, modos de vida, representações do mundo cujas diferenças se tornam ainda tanto mais importantes na medida em que são melhor percebidas. A globalização cultural, trazida pelos fluxos migratórios, o turismo e as comunicações veiculadas pelas mídias, não se reduz ao aumento das relações culturais entre os Estados ou fluxos de produtos culturais. Ela transforma a maneira como nós nos representamos o mundo, suas possibilidades, suas fronteiras. É um fenômeno estruturante cujos efeitos não podem ser analisados em termos simplistas de dominação ou de uniformização, em função das políticas culturais nacionais ou em termos quantitativos de mercado.

O aparecimento do Estado, que se tornou em seguida Estado-nação, mudou a definição e a percepção do espaço social, político, econômico e cultural. A ponto em que parece ter se tornado quase impossível pensar e converter o espaço de outro modo senão a partir das fronteiras estatais. A globalização que constitui uma transformação não menos importante não permite mais pensar o global a partir do nacional em função do local. Ela não faz desaparecer o território, os grupos sociais ou o Estado-nação, mas faz aparecerem novos espaços. Para compreendê-la, é preciso antes partir das esferas definidas pelas atividades humanas que de um lugar permanente que definiria uma sociedade. É nessa condição que podemos esperar chegar a apreender a realidade dos espaços econômicos, políticos, sociais e culturais e sua freqüente desconexão. Poderemos assim, como propõe Paul Ricoeur, distinguir a troca cultural feita de entrecruzamentos e de fluxos, de conceitos geopolíticos que giram em torno da idéia de fronteira.

O mapa cultural do mundo desenhado a partir das realidades das interações culturais poderia se revelar muito diferente dos mapas geopolíticos ou geoeconômicos. As áreas geoculturais se situam em um continuum móvel (nada está fixo) que poderia compreender :

  • "Países-cultura" (Japão, Dinamarca, China...)
  • Esferas culturais (mundo árabe, mundo banto...)
  • Áreas lingüístico-culturais ("Ibero-América", Lusofonia, Francofonia...)
  • Diásporas (chinesa, turca...)
  • projeto ainda apenas evocado de uma Europa das culturas
  • "A Hipercultura Globalizante" veiculada pela mídia global.
  • Essas áreas geoculturais constituem realidades que se definem de maneira variável. Elas não são dadas como simples heranças. Elas evoluem e não podem ser fixadas em um estágio determinado. Elas são constantemente chamadas a se construírem. Se elas decidem se instituir como atores, poderiam constituir, à maneira das entidades de fundamento regional para outras injunções, esferas de responsabilidade, de interação e de coexistência, e portanto representar a base do pluralismo cultural como projeto político que permitiria dominar o processo da globalização cultural.

    Hoje, os fatores de poder de rivalidades e de conflitos não têm mais por único ou mesmo principal âmbito o território físico, como no tempo das lutas pela posse de recursos naturais. As batalhas pelo poder estão largamente ligadas à capacidade de manipulação dos símbolos no espaço mediático globalizado. A produção dos conceitos e dos símbolos faz parte das relações de poder e desempenha um papel de primeiro plano na dinâmica complexa da globalização. Eis porque, junto às questões geopolíticas e geoeconômicas às quais eles não são redutíveis, é preciso, de agora em diante, tomar em consideração no mesmo plano as questões geoculturais, isto é, os fatores de característica cultural (valores, idéias símbolos, representação do mundo, língua, arte...), seus suportes e modos de expressão que contribuem para estruturar as relações entre os humanos e as sociedades em escala global. Essas questões dizem respeito, portanto, ao mesmo tempo às áreas geoculturais, às "indústrias do imaginário", que devem ser consideradas como atores geoculturais, e aos mercados geoculturais.

    A confrontação intensiva de representações do mundo, em condições estruturalmente desiguais, faz com que suas diferenças sejam melhor percebidas e suscita interrogações e inquietações das quais o importante é apreender o alcance político e estratégico. Não basta analisar estas questões de modo simplista abordando somente sob o ângulo da hegemonia cultural, da abertura dos mercados culturais ou das políticas culturais nacionais. A globalização cultural oferece possibilidades inéditas de interações culturais e, portanto, de enriquecimento possível. Ela levanta também problemas de segurança cultural que podem tomar formas diversas: ameaças de darwinismo cultural, de hegemonia cultural, de incompreensão radical... É preciso não ignorar a força beligerante dessas ameaças se não conseguimos inventar um quadro de interações entre as sociedades e as culturas que respeite realmente a igual dignidade de cada uma. Os que hoje se espantam com a elevação do fenômeno identitário - curvando-se eles próprios sobre o Estado-nação considerado "fim da história" -, parecem ignorar que a identidade, ou a necessidade de reconhecimento constitui, com a evolução tecnológica, uma alavanca permanente da História. Ignorar isso comporta o risco de ver ressurgir essa necessidade humana fundamental por caminhos que seriam difíceis de controlar.

    Lista de assuntos de discussão :

  • Globalização e cultura: quais os desafios? (já online no site experimental)
  • Cultura e identidade
  • O mapa cultural do mundo: as áreas geoculturais
  • A segurança cultural
  • Da exceção ao pluralismo cultural (já online no site experimental)
  • "A Hipercultura globalizante": a emergência de um sexto continente
  • Qual futuro para as identidades culturais?
  • SUAS sugestões...
  • Jean Tardif,
    26/07/04

    Texto traduzido do francês pela UERJ - Universidade do Estado do Rio de Janeiro, Escritório Modelo de tradução Ana Cristina César, Brasil

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