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 Breves reflexões sobre a cultura


por Alejandro Serrano CALDERA
Filósofo e jurista (Nicarágua)

Alejandro Serrano Caldera, filósofo, jurista e escritor que ocupou altas funções na Nicarágua, apresenta algumas reflexões sobre a cultura no mundo atual. Para outros textos deste autor: Os intelectuais e o poder (em espanhol), Sobre o Estado de Direito e os Direitos do Homem "Estado de Derecho y Derechos Humanos". Ele publicou recentemente Razon, Derecho y Poder, Reflexiones sobre la democracia y la política, Hispamer. Manágua, 2004.

Milan Kundera interrogou-se, outrora, em seu ensaio sobre "os desafios da literatura tcheca", se uma pequena nação pode criar uma cultura própria.

Kundera lembra, nesse trabalho, que o renascimento da cultura tcheca se produziu no momento em que Goethe propôs seu célebre conceito de literatura mundial. "Uma grande nação, diz ele - traduzo do francês - dificilmente resiste à tentação de considerar sua maneira própria de viver como valor supremo... Pelo contrário, uma pequena nação não pode se permitir tais ambições. Ela sonha, não em ver o planeta transformado em sua própria imagem, mas antes com um mundo de tolerância e de diversidade no qual ela poderá viver em igualdade com os outros".

"O conceito de literatura mundial - prossegue ele - inventado por Goethe, corresponde precisamente a esse espaço de tolerância e de diversidade, onde a obra de arte não é sustentada por um certo prestígio nacional, mas somente por seu valor e onde as culturas das pequenas nações podem conservar seu direito à especificidade, à diferença e à originalidade".

A mensagem quer e deve ser otimista, sem esquecer, entretanto, os riscos que correm as culturas dos pequenos países, menos por causa da influência de grandes literaturas de hegemonia mundial, como na época em que Goethe propunha seu conceito de literatura mundial como um espaço de coexistência de literaturas nacionais diferentes, que em razão dos processos de estandardização, robotização e transnacionalização das economias, dos modos de vida e da existência.

Isto impõe que se assuma, sem tardar, um duplo desafio: reafirmar o caráter essencial de cada cultura, para fundar sobre ela o que nós poderíamos chamar o ser histórico, a ontologia na qual cada nação e cada povo pode reconhecer sua identidade própria; e, ao mesmo tempo transcendê-la, salientando o desafio que consiste em abrir para um horizonte mais vasto. Na impossibilidade de fazer simultaneamente essas duas coisas, chegaríamos, em um caso, à abstração e ao vazio que faria de nós, no melhor dos casos, um povo de imitadores; e em outro, o enclausuramento e a auto-colonização.

Os termos identidade e crise dizem respeito a duas dimensões fundamentais do mundo contemporâneo. A identidade se define sempre em relação com a cultura, se nós compreendemos esta como o conjunto das reflexões e das ações, das criações e das tradições, dos modos de vida e das possibilidades, das realidades e das perspectivas de uma comunidade humana determinada.

A crise provém da ruptura dos referentes habituais de uma sociedade e de uma época, das idéias, mas, sobretudo, das crenças e dos valores que constituem o fim último, rumo ao qual a pessoa e a coletividade aspiram. Das crises, surgem possibilidades e ocasiões que podem ser boas ou más, segundo a atitude que se toma e o caminho que se escolhe. A cultura é o que o homem criou em se criando a si próprio.

A cultura é muito mais que erudição ou refinamento, ela constitui a substância própria do homem, sua natureza própria. Sem cultura, o ser humano deixa de sê-lo. Ele se desnatura, o que vem a dizer que ele se desumaniza. "A vida sem cultura é barbárie. A cultura sem vida, é bizantinismo", antecipava-nos José Ortega y Gasset, nos anos vinte do século passado, em seu ensaio notável "O Sujeito de Nosso Tempo".

"A cultura é a morada do homem - diz o peruano Leopoldo Chiappo. A rede na qual moramos foi suspensa acima de um abismo: sem cultura e sem o aprendizado da cultura, o homem perece", mas acrescento que, sem renovação, sem criação, o homem perece também.

"A parábola é clara: ou construímos a cultura, ou estamos aprisionados". Essa rede, a teia de aranha da qual fala Chiappo, explicando a parábola de Thiequin, "tem um duplo papel, protetor e também predador. A cada anoitecer, a aranha destrói sua teia para recomeçar nas últimas horas da noite a fazer uma nova teia para a aurora. Do mesmo modo, o homem destrói e constrói sua cultura ao longo de algumas noites profundas e tensas da história".

Três caminhos somente se abrem para ele :

  • ou ele constrói a cultura,
  • ou ele a destrói,
  • ou ele fica prisioneiro de redes antigas, em razão de sua incapacidade para produzir novos fios condutores dessa emanação do ser humano, que nós chamamos de cultura. A natureza do homem é sua cultura.
  • A palavra chave é criar, e eu diria antes, recriar, porque ninguém criou a partir de nada, nem construiu no vazio. A criação cultural é, ao mesmo tempo, preservação e transformação. Como dizia Hegel, Aupheben é transformar para conservar. A única maneira de conservar é transformar. A única maneira de manter vivo o passado cultural é transformá-lo, criar o novo a partir das antigas formas culturais.

    Tal é o desafio para nossa cultura, para toda cultura: criar, transformar, continuar; "fazemos o caminho caminhando", dizia Antonio Machado, estando conscientes, ao mesmo tempo, que não podemos voltar atrás, que hoje é um ponto de partida, e que se amanhã é um horizonte, é porque outros fizeram esta rota antes. É preciso nunca esquecer que todo ponto de chegada é, também, necessariamente, um ponto de partida.

    A crise contemporânea pode ser identificada a partir da interação entre duas circunstâncias determinantes: a pluralidade das culturas, por um lado, e a configuração de um poder único mundial, por outro lado.

    A multiculturalidade, compreendida como a existência de culturas plurais, não se exprime na interculturalidade, isto é, como a interação de culturas que se comunicam e se influenciam entre elas. Pelo contrário, em alguns casos, o fenômeno contemporâneo expressa uma tendência à formação de micro-sociedades fechadas, voltadas para o interior e que vêem na outra cultura, na diferença, um elemento real ou potencialmente ameaçador.

    "O inferno é o outro", dizia o filósofo francês Jean-Paul Sartre, para caracterizar, por uma fórmula impressionante, a atitude que consiste em desqualificar ou diabolizar a diversidade e a tendência de algumas culturas ao hermetismo e à impermeabilidade, o que contrasta fortemente com os processos de globalização que dominam o mundo contemporâneo.

    Assim, se toda civilização é um sistema de culturas integradas, cada uma com seu próprio núcleo de princípios, objetivos, fins e valores, com seu imaginário, sua visão particular do mundo e da vida, vê-se rapidamente a qual ponto o problema se radicaliza e se torna mais complexo.

    Os acontecimentos mundiais que resultaram nos ataques de 11 de setembro de 2001, nas invasões do Afeganistão e do Iraque, consolidaram essa estrutura do poder mundial e rejeitaram no segundo plano o debate sobre a prioridade do Estado ou do Mercado, unificando os dois em um círculo único do poder formado por múltiplos afluentes políticos, militares, financeiros, econômicos, estratégicos.

    O mundo vive uma situação na qual foi rompida a ordem mundial surgida no fim da Segunda Guerra Mundial e que deu origem à Organização das Nações Unidas. A ruptura do contrato social do pós-guerra constitui um dos dramas do nosso tempo. É indispensável procurar instaurar um Novo Contrato Social para manter a paz. Com esse fim, a cultura, a interculturalidade, compreendida como diálogo e reconhecimento recíproco das culturas, é uma condição necessária.

    Texto traduzido do francês pela UERJ - Universidade do Estado do Rio de Janeiro, Escritório Modelo de tradução Ana Cristina César, Brasil

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