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  A respeito do diálogo entre as culturas

Gerd Junne
Professor, departamento de Ciências Políticas, Universidade de Amsterdã,
Diretor do Instituto de relações internacionais de Amsterdã
Membro de PlanetAgora

Os indivíduos dos dois lados do "fosso cultural" têm muito a ganhar ultrapassando as preocupações ligadas às imagens, símbolos e posições do passado, para ousar se abrir verdadeiramente à experiência do Outro. A fixação em imagens preconcebidas, doutrinas inflexíveis e posições políticas rígidas bloqueia qualquer diálogo. O que é mais importante, atualmente, para as duas comunidades, é ultrapassar as reações impulsivas ligadas a discursos curvados sobre si próprios, isto é, oposições centradas na justificação egoísta e etnocêntrica da dicotomia do "ou bem/ou bem", que divide o mundo em campos opostos.

Em contrapartida, o diálogo concebido como uma ferramenta para transformar o conflito implica em buscar o poder com o Outro, mais do que o poder em uma cultura estrangeira. Idealmente, um tal compromisso cultural igualitário não deveria ser simplesmente uma coisa de uma elite, mas antes, um processo de larga participação, que permita aos membros de culturas estrangeiras redescobrir suas tradições e suas respectivas motivações. No lugar da aproximação negativa que procura, sobretudo, desmistificar os estereótipos (como tendências do orientalismo e do ocidentalismo), o diálogo busca desenvolver novas compreensões mútuas sobre uma base de cooperação. Um tal compromisso ativo, através de um diálogo elevado, pode ajudar a descobrir uma significação dividida, apesar do temor, da cólera, da insegurança e da incompreensão.

O diálogo através das fronteiras culturais permite aos membros de comunidades em conflito redescobrir suas próprias tradições. Procurando maneiras de compreender, tanto as realidades atuais, quanto as críticas externas, os que praticam o diálogo permitem a suas tradições se expressarem em novos contextos. Nesse processo, eles adquirem uma compreensão aberta dos outros sistemas culturais e iniciam um processo de ampliação e reconstituição dos fundamentos de suas próprias identidades. Isso não significa sacrificar seus vínculos originais, mas exige pelo menos práticas mais interculturais: fazer a experiência do outro em sua própria identidade.

Ultrapassar as atitudes reacionárias e o comportamento etnocêntrico supõe que o mundo ocidental e o mundo islâmico chegam a se conhecer. Recusar os desafios de um diálogo ativo leva a reforçar a posição dos fundamentalistas nas duas comunidades. No mundo moderno, para qualquer grupo - muçulmano, judeu, cristão, budista, hindu -, enclausuramento no seu gueto cultural ou político não é somente uma negação da rica diversidade da experiência contemporânea, mas também uma recusa em assumir sua responsabilidade para com as gerações futuras. Importa desenvolver os processos de uma comunicação intercultural capaz de produzir o respeito da diversidade no interior e no exterior de nossas próprias comunidades, a confiança na diferença e o olhar crítico sobre si. Os que enveredam por esse caminho não devem esperar uma recompensa imediata, o fim definitivo dos conflitos ou a segurança da compreensão. Eles deveriam, antes, procurar ajudar a outra parte a entender como cada uma situa sua identidade no mundo e encorajar as duas partes a trabalhar juntas, para descobrir e inventar compreensões e prioridades partilhadas. Um tal diálogo incitará os ocidentais e os muçulmanos a melhor entender seus valores e seus ideais respectivos, à medida em que eles aprenderem a dividi-los de uma nova maneira.

Porque o mundo atual não oferece nenhuma perspectiva para encontrar a autenticidade no isolamento ou a segurança no interior de fronteiras rígidas, os muçulmanos e os ocidentais devem procurar mais o encontro que a ignorância ou o confronto. Promover relações de diálogo pacífico, no clima atual de recriminação mútua e reivindicação de uma superioridade cultural, não será uma tarefa fácil. Os discursos dominantes na América e no Oriente Médio se assemelham estranhamente em sua maneira de construir a imagem do inimigo por um recurso seletivo na História. Como produtos de comportamento etnocêntrico, tais discursos fazem a guerra parecer natural. O diálogo pacífico, contrariamente à guerra, é proativo e exige um esforço deliberado para passar do superficial ao relacional, da morbidade à criatividade, da defensiva à franqueza, de uma fixação sobre os aspectos negativos à afirmação cooperativa de possibilidades positivas e de políticas do medo à projeção das políticas da esperança. O dinamismo positivo exige o pleno compromisso do Eu com o Outro, ao mesmo tempo que a consciência que as relações "Islã"-"Ocidente" carregam nelas não somente o peso dos conflitos passados, mas oferecem também recursos para alcançar a paz hoje.

Texto traduzido do francês pela UERJ - Universidade do Estado do Rio de Janeiro, Escritório Modelo de tradução Ana Cristina César, Brasil

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